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Fé e Religião

Fé e Religião

Certa vez uma pessoa fez uma pequena afirmação que descrevo agora: “Precisamos ter fé em nós mesmos. Por exemplo, sem olhar para o lado da religiosidade, o maior ensinador de todos os tempos, Jesus Cristo, nos ensinou a ter fé, não é?” (parafraseado, é claro)

Vejam que ela afirmou que Jesus nos ensinou a ter fé, simplesmente isto. Vamos entender melhor o peso desta afirmação. O problema de hoje é que termos como fé e religião estão banalizados, a sociedade está cheia de um sentimento ecumênico. A banalização da fé já nos permite olhar para esta palavra com um ar religioso.

No dicionário Aurélio Fé é:

1.Crença religiosa. 2. Conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto. 3. Rel. A primeira das virtudes teologais: adesão e anuência pessoal a Deus. Firmeza na execução duma promessa ou compromisso. 5. Crença, confiança. 6. Testemunho autêntico, escrito, de certos funcionários, que tem força em juízo.

Aqui vemos que a fé tem outros significados que não são religiosos. Uma pessoa pode ter fé, e tem fé o tempo inteiro. Ela tem fé quando vai comprar um cachorro quente, de um ambulante de esquina que ela sequer conhece, e come sem questionar como ele foi preparado, apenas crendo que não há nenhum problema em comê-lo. Em resumo, aplicamos um tipo de fé o tempo todo. Mas a nossa discussão se concentra no tipo de fé que Jesus ensinava. Para alguns, pelo simples fato do que lemos no dicionário Aurélio chega-se a conclusão de que Jesus ensinava a fé religiosa ou a virtude teologal, já que pensamos em Jesus com um conceito puramente religioso.

Daqui podemos também discutir o que é religião, pois fé e religião sempre estão ligados pelas pessoas. Primeiro é um tremendo engano quando dizemos que falar sobre Jesus é falar sobre religião – no termo secular. A palavra religião vem do latim religare que significa religar a algo, ou seja, neste caso, religião significa religar o homem a Deus.

Jesus nunca tencionou fundar uma religião. O que havia eram culturas, como a judaica, por exemplo. Para entendermos melhor tomemos o exemplo de Karl Marx. Marx era um judeu, porém seu pai era protestante e Marx era ateu. O que havia aí então? Karl Marx pertencia a uma raça, cultura, povo, conhecido como judeu, porém a sua religião, segundo o conceito secular, não existia, ou seja, ela não tinha religião. Para ficar mais claro que o judaísmo era uma cultura e não uma religião, basta ler o livro Torá, ou seja, o Pentateuco Bíblico, que é a base do ensinamento judaico. Nestes cinco livros, que são os cinco primeiros do Antigo Testamento da Bíblia, vemos lições morais, civis e espirituais, sendo que somente esta última tinha a intenção de religar o judeu a Iawé, o seu Deus. Nas outras culturas havia normas espirituais, porém nenhuma delas poderia ser ligadas ao conceito de religião, pois o único Deus considerado verdadeiro era o Deus dos judeus, por isso o único que precisava ser religado ao homem. Sem falar que era a única cultura onde havia regras e conceito de pecado além de ser a única cultura monoteísta.

O Novo Testamento traz o conceito de religião empregado pelos apóstolos, para designar a sua própria fé. A partir daqui talvez o conceito fosse mais empregado. Avaliando pela Bíblia, há quatro versículos onde se empregam esta palavra.

Atos 25.19: tinham, porém, contra ele algumas questões acerca da sua religião e de um tal Jesus defunto, que Paulo afirmava estar vivo. Atos 26.5: pois me conhecem desde o princípio e, se quiserem, podem dar testemunho de que, conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu. Tiago 1.26: Se alguém cuida ser religioso e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a sua religião é vã. 27:A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo.

Nos dois primeiros versos vemos o uso da palavra como ela é atualmente. A palavra religião é usada para designar qualquer crença em um divindade superior. Porém no que se refere ao que Tiago escreveu tem-se o que é considerado a base dos ensinamentos de Jesus Cristo. Vemos a demonstração da banalização da religião. Talvez o simples fato de dizer que pertencia a uma religião fazia com que a pessoa se achasse no direito de fazer o que quisesse. Provavelmente, a religião já na época de Tiago já estivesse sendo praticada como atualmente, sem renunciar a nada, ou crer verdadeiramente em nada. Quando Tiago usa o termo religião ele está se referindo a Jesus Cristo. Para os primeiros cristãos, a religião era Jesus Cristo e não uma denominação ou instituição, muito menos uma cultura. Pelo conceito de religar, Jesus foi aquele, que por meio de si mesmo religou o homem a Deus, a Iawé, já não havendo necessidade das lições espirituais tais como estavam contidas no Antigo Testamento, surgindo sim um modo simples de servir a Deus, sem rituais, dogmas ou liturgias. Robert Hastings Nichols, em seu livro A História da Igreja Cristã, declara que a palavra religião em alguns casos assume outro significado, que é “atenção aos detalhes”, significando que ela representa qualquer espécie de culto que siga normas específicas e uma liturgia ou ritual bem trabalhado.

Jesus Cristo jamais fundou uma religião, pois não decretou uma hierarquia, não deixou rituais a serem seguidos, não propôs dogmas, liturgias (exceto o batismo), apenas deixou regras morais que deveriam ser seguidas após a sua religação a Deus, por meio Dele. Em resumo Jesus não deixou religião, ele é a própria religião.

Quando falamos de Jesus não estamos falando de religião segundo o conceito existente atualmente na mente das pessoas. Só estamos falando de religião quando pensamos de acordo com a sua mensagem deixada a todos os homens.

O principal problema da religião é que ela se tornou desígnio para o ecumenismo. Ao afirmar que todas as religiões levam a Deus ela torna verídica a sua designação. Porém essas religiões na realidade ligam o homem ao mundo espiritual, mas não ao Deus Bíblico. O ecumenismo gera um erro ao afirmar que as várias religiões levam a um mesmo Deus, pois como pode um mesmo Deus se utilizar de vários rituais para levar um mesmo ser a si. Por que para uns é necessário se separar do mundo, enquanto para outros é preciso seguir rituais ou até mesmo não fazer nada, se o Deus ao qual se estão religando é o mesmo? Neste aspecto o ecumenismo gera uma incoerência. Essa incoerência gerou outra maior ainda: todas as religiões propõem a vida eterna, logo todos serão salvos se as seguem, se têm fé nelas. É este conceito de fé que quero questionar, pois há a generalização da fé ao declarar que Jesus nos ensinou a ter fé. E eu pergunto: Ter fé em quê? Ter fé pra quê? Como ter fé?

Ao afirmar que Jesus nos ensinou a ter fé, sem especificar que tipo de fé, foi aberto um leque de opções que vão totalmente contra os conceitos cristãos. Se Jesus simplesmente ensinou a ter fé, ele faz com que qualquer religião entre neste requisito, e faz com que qualquer fé, independente de religião, seja aceita por Jesus Cristo. Sendo assim, o aspecto de crer em si, ter fé em si mesmo, faz com que você seja aprovado neste critério estabelecido por Jesus Cristo.

De acordo primeiramente com Paulo, e depois, com Agostinho e por último, segundo o conceito de Martinho Lutero, sendo que Tomás de Aquino concorde com isto e ainda acrescenta mais (basta avaliar a teologia católica), a salvação vem ou se alcança por meio da fé.

Romanos 1.17: Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.

Com base nesta passagem, Agostinho e Martinho Lutero chegaram a conclusão de que a salvação seria puramente por meio da fé. Tomás de Aquino afirma que a fé e as boas obras salvam o homem. Toda religião prega e crê na imortalidade da alma, e a maioria delas crê que haverá uma contribuição, segundo suas atitudes, no mundo porvir. Essa contribuição pode ser a salvação da alma, ou a sua condenação. Ao usarem somente esta passagem para defender suas teses, Agostinho e Lutero teriam deixado vago o ensinamento sobre salvação. Tomás de Aquino especificou também as boas obras para obter salvação. Caminhando segundo este conceito, a Igreja Católica atual acabou se acomodando em relação ao conceito de fé e se alicerçando nas boas obras, fazendo com que as outras religiões tivessem mais ascensão segundo a sua doutrina. Um exemplo básico é a questão de canonização e beatificação de santos. Há muitos santos que se tornaram populares entre o povo, e que não foram canonizados e beatificados, mas são adorados com o consentimento da Igreja Católica, baseando-se no fato das pessoas crerem neles e no fato das boas obras que eles praticaram e ensinaram a estas pessoas. Isso também fez com que ocorresse, pelo menos no Brasil, mais do sincretismo religioso e gerou nas pessoas um pensamento mais ecumênico, fazendo com que muitos considerassem todas as religiões brasileiras como cristãs.

Porém, tanto Paulo, como Agostinho, Lutero e Tomás de Aquino especificaram que a fé que salvava era a fé em Jesus Cristo, e não a fé simplesmente. Jesus nos ensinou a ter fé Nele e nele somente.

João 11.25: Declarou-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; João 17.3: E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.

A salvação então viria por meio da fé em Jesus Cristo. Isso nos leva a conclusão de que Jesus jamais nos ensinou a ter uma fé banal ou até mesmo uma fé em nós mesmos. Vamos exemplificar melhor por meio das seguintes passagens:

Marcos 5.22: Chegou um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo e, logo que viu a Jesus, lançou-se-lhe aos pés. 23: e lhe rogava com instância, dizendo: Minha filhinha está nas últimas; rogo-te que venhas elhe imponhas as mãos para que sare e viva. 24: Jesus foi com ele, e seguia-o uma grande multidão, que o apertava. 25: Ora, certa mulher, que havia doze anos padecia de uma hemorragia, 26: e que tinha sofrido bastante às mãos de muitos médicos, e despendido tudo quanto possuía sem nada aproveitar, antes indo a pior, 27: tendo ouvido falar a respeito de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou-lhe o manto; 28: porque dizia: Se tão-somente tocar-lhe as vestes, ficaria curada. 29: E imediatamente cessou a sua hemorragia; e sentiu no corpo estar já curada do seu mal. 30: E logo Jesus, percebendo em si mesmo que saíra dele poder, virou-se no meio da multidão e perguntou: Quem me tocou as vestes? 31: Responderam-lhe os seus discípulos: Vês que a multidão te aperta, e perguntas: Quem me tocou? 32: Mas ele olhava em redor para ver a que isto fizera. 33: Então a mulher, atemorizada e trêmula, cônscia do que nela se havia operado, veio e prostrou-se diante dele, e declarou-lhe toda a verdade. 34: Disse-lhe ele: Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz, e fica livre desse teu mal.

Nestas passagens vemos uma mulher que acreditou que Jesus Cristo poderia curá-la se ela simplesmente tocasse as vestes dele. Isso significa que antes dela ter fé, ela teve fé nele, em Jesus Cristo.

Mas porque acreditar em Jesus Cristo? Porque ele é a verdadeira religião e o motivo da nossa salvação. Jesus propôs para nós uma vida como ninguém poderia jamais pensar e se você segue uma religião, saiba que somente Jesus é a religião. Ainda que você seja católico, evangélico, mórmon ou testemunha de Jeová ou participe de qualquer grupo que declare que Jesus é Deus ou que diga crer nele, saiba que pertencer a uma dessas religiões não faz de você alguém que acredite em Jesus Cristo, faz de você apenas um religioso segundo os padrões seculares e um religioso conforme Tiago descreveu.

Em última análise, como ter fé em Jesus Cristo? Não há como crer em alguém ou algo, ao contrário do que muitos pensam, se não conhecemos aquilo em que cremos. Logo só se pode ter fé em Cristo conhecendo-o primeiro. O conhecimento de Jesus trará como conseqüência a fé, e esta trará por sua vez resultados, que serão a mudança de atitudes. A fé em Jesus consiste em mudança do padrões seculares ou aqueles seguidos antes de conhecer a Cristo por novos padrões de acordo com o conhecimento e vontade de Jesus Cristo. Estes são os pontos principais da fé a qual a pessoa citou de forma errada. Mas não devemos ter fé em nós mesmos? Acreditar em nós mesmos simplesmente é ateísmo, egocentrismo, individualismo, ou seja lá o que for. Mas segundo Jesus Cristo a fé nele nos torna filhos de Deus e isso faz com que sejamos importantes. Isso quer dizer que a fé em Jesus Cristo gera a fé em nós mesmos como filhos. Jesus se importou conosco e nos fez para a sua glória. Jesus por meio de si nos tornou filhos de Deus e temos um Pai que nos ama a ponto de se entregar por nossos pecados. Ele nos fez com um propósito, pois confiou em nós, habitando em nosso espírito. Se Jesus confiou em nós, nós devemos confiar em nossa capacidade, não porque somos alguma coisa, mas porque Jesus é tudo em nós. É dessa forma que devemos crer em nós e qualquer forma de crença em nós mesmos sem nos basear em Jesus Cristo é simplesmente egocentrismo.

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